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:: quarta-feira, abril 23, 2003 ::
Já que hoje estou roubando coisas do blog da Mari e hoje especialmente estou sentindo minha natureza mega defeituosa, vou colocar essa frase.
"O tamanho do amor pode ser medido pela quantidade de esforços que se faz para controlar sua própria natureza humana, defeituosa."
:: Alexandre Sigolo 11:34 AM [+] ::
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Tomei a liberdade, mesmo que sem pedir diretamente, de reproduzir um texto da Mari no meu blog. Estava postado no blog dela e acho esse texto muito bom. Mesmo. Qual é o blog? www.superficialmenteprofundo.blogspot.com
Sinta esta dor como se fosse a última.
Deixe-se afogar nesse sentimento indescritível, misto de angústia, tristeza e desprezo, porque será a última vez que sentirá isso.
Aproveite, reconheça-o, e guarde uma lembrança desse momento. Ele não deverá se repetir por muitas vezes mais em sua vida, não figurará como condição absoluta na sua existência.
E para isso, só peço uma coisa de você: que deixe de sentir pelas pessoas. Sim, apenas isso. Em troca de uma existência onde mesquinharia nenhuma irá afetar-te. Onde passará incólume às baixezas dos seres humanos, suas inconstâncias e hipocrisias.
Você pode continuar se relacionando, representando essas cenas de sentimentos, brincando, rindo. É uma escolha onde têm só a ganhar, não percebe? Você pode ser participativo ou não dessa brincadeira social, tratá-la com aparente seriedade ou com gracejos, mas o que importa é que você deixará de sentir qualquer espécie de dor por causa das brincadeiras sociais dos outros.
Ou pode escolher estar e não se importar, conseqüentemente não sentir. Se isolar, se fechar. Não se abrir. Se fritar. Mascarar. Não ser. E não sentirá dor. Você não merece a dor. Deixe de sentir pelos outros, eu lhe peço, e sinta apenas por você. Feche-se no egoísmo, que é necessário para participar sem danos a si mesmo. A natureza é essa, aprenda a não esperar mais dela, minha querida. Reconheça a verdade, pare de participar cegamente desse mundo com ilusões tecidas por uma massa. Isso só a machucará de uma forma que não é absolutamente necessária.
Sinta essa dor como se fosse a última. Sinta! Só o que você precisa é não sentir pelos outros.
Vai me dar essa chance de mostrar-te o outro lado? Ou você têm medo disso?
Depois que eu li isto pela primeira vez, fiquei pensando bastante sobre o assunto. Cheguei a conclusão que eu sinto, não só por mim, mas pelos outros também, tenho a conciência que ninguem quer ter, tenho os sentimentos que todo mundo esconde, tenho meus desejos, vontades, milhões de frustrações, orgulhos, qualidades e defeitos. Parece que todo mundo age como se estivesse num estado de animação suspensa, inertes aos sentimentos, a ética e principalmente, as reflexões. Parece que ninguem pensa mais, ninguem reflete...não é mais usual ver o lado do outro ou refletir sobre suas atitudes antes de toma-las. Porque hoje as coisas estão assim, amanhã o jogo pode virar. Mantenham suas qualidades a flor da pele, por favor. Pensem, por favor. Não sei mas a cada dia que passo fico mais indignado e maluco.
Vai me dar essa chance de mostrar-te o outro lado? Ou você têm medo disso?
:: Alexandre Sigolo 11:31 AM [+] ::
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:: terça-feira, abril 22, 2003 ::
Verona, 2003 – Zona leste.
Romeu - Cara conheci uma minazinha, jeitosa, magrinha e tal, pena que nossas famílias são tretadas, daí já viu né...
Amigo do Romeu - Que zica hein mano, e ai, o que você vai fazer?
R - Ah mano, a mina é mó nóia, entra numas de estar apaixonada e tal ai já viu né? Vou fazer uma fita com a mina depois desencanar. Vou lá, bato uma dentro dela e mando andar depois.
A - Só
R - Tipo passo um pano pra mina, me finjo de legalzão pra caralho, o piadista, o firmeza, passo um pano, depois mando se foder. É mó boi, mina assim pra cair nesse papinho é dois palito.
A - Pode crê, mais e ai, por que você disse que a mina é mó nóia?
R - Tipo ela entrou numas de simular um suicídio pras nossas famílias desbaratinarem e tal, quando as famílias pensarem que os dois se mataram porque agente tava apixonados no talo, nós saímos fora, vamos morar sei lá onde e viver de sei lá o que. Mó delírio, mas pra fazer a fita, vou engordando a minazinha.
A - Você nem curte a mina? Ela imagina que você nem está apaixonado?
R - Que truta? Apaixonado eu? Se orienta mano, nem to nessas, nem vou estar nunca. Esse lance de amor não existe, é coisa da Branca de neve aquela vaca, nem é umas entregar o coração pra ninguém.
A - Só. Tó, tá apagado.
Verona 2003 – Zona oeste
Julietta - Porra e o Romeu hein, o cara é super fofo, engraçado e tudo mais. Legal de mais, pena que ele é daquela família que eu nem posso falar o nome aqui em casa.
Emprega um pouquinho mais esperta – Como você sabe que ela é tão gente boa assim?
J – Ah ele me diz aquelas coisas todas, ele é legal sim, me diverte, e me diz isso e aquilo, que eu sou gente boa de mais, que me ama...
E – Sei não, de repente ele só falou o que você queria ouvir e...
J – Ah vai se foder, o que você entende dessas coisas? Uma empregada, você nunca viu o cara nem nada e fica me noiando com suas idéias escrotas.
E – Foi mal então, vamos ver qual vai ser o proceder dele, depois você me conta.
J – Ele é muito legal, nós bolamos um plano mirabolante para despistar nossas famílias e ir embora de Verona, mas nem vou te dar a letra pra você não me gorar.
E – Você gosta mesmo desse cara?
J – Falar a verdade não sei, nem preciso também, finjo pra ele que gosto e já é suficiente, a única parte do meu corpo que importa agora é a que eu vou usar com ele, e te garanto não é meu coração. Esse lance de amor não existe, nem nunca existiu e nem acho que vai existir um dia, é um cara do role e esse lance do plano mirabolante é só pra por sabor no role. E foda-se se ele não curtir, o que importa sou eu, linda e maravilhosa.
E – Quer outro chocolate?
J – brigadinha!!
Moral da história: Verme ou sangue bom, tanto faz, pra ambos os lados. Mas me ocorrem duas perguntas, e quando o verme se transforma em sangue bom (raríssimo) e vice-versa (mega comum)? Será que alguém se importa? Falando em se importar, alguém se importa em reparar que a pessoa é um verme e mesmo assim não liga, e quando o sangue bom está ali na mão, será que alguém se importa? Será que o sangue bom ainda tem espaço reprodutivo, físico e emocional no planeta? Será que ele vai ter o respeito merecido? Será que só o verme triunfará?
Para o bem da humanidade, Romeu e Julietta morreram no final da história. Ele comandado pelo seu próprio egoísmo foi dragado pela força da alienação emocional e acabou sendo atropelado por um ônibus dirigido pelo pai da Julietta (que destino sarcástico não?) momentos após ter feito a fita derradeira com a mocinha. Ela morreu 4 meses depois, vítima de uma sífilis mal curada. Dizem que o caixão estava lacrado.
Tudo o que você faz deixa marcas na sua alma. O problema é quando o que você faz deixa marcas nas almas dos outros.
:: Alexandre Sigolo 9:46 AM [+] ::
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Tchau Nona!
Nesse feriadão, de alto valor religioso, morreu a minha avó. Mais precisamente no sábado de aleluia e foi enterrada no dia de páscoa.
Além do fato em si, o irremediável encontro tem com a madame da foice, houve mais com o que eu ocupasse minha mente durante o domingo. A nona era casada desde os 18 anos com meu avô, ou seja, há 64 anos e cinco filhos, entre eles meu pai. Fiquei ouvindo algumas histórias sobre o casal no dia e pensando nos meus avós maternos que também ficaram juntos por um tempão e o quão doloroso deve ser perder metade do seu mundo, enterrar mais do que a esposa. É impossível não sentir inveja de um relacionamento desses, aquele amor que hoje nos parece coisa de ficção e que só aparece nos livros, tipo um animal extinto ou uma lenda – “ouvi dizer que fulano realmente ama fulana, sei não” quase uma lenda. Voltando, 64 anos juntos, pelo que conste nenhum pedido de tempo, nenhum “você esta me sufocando” e afins ou qualquer ponta de egoísmo de ambas as partes. Reza a lenda que minha avó uma vez desconfiara que meu avô tinha uma amante (detalhe, meu pai já era casado com a minha mãe e foi lá resolver o “impasse”) e singelamente, sem rodeios, sem firulas ou o já citado “você me sufoca” a nona disse que iria matar meu avô com um machado, isso é que é amor (segundo a mesma história foi viagem da minha avó). Parei e fiquei traçando um paralelo com o que nos contentamos hoje, como são as pessoas hoje. Dentro de todo o seu egoísmo e conceitos mirabolantes do que é o amor (será que todo mundo acredita mesmo em tal coisa?) é praticamente impossível imaginar uma situação como essa hoje em dia. Incluímos aí uma dose grande de doação, uma consciência extrema de que as pessoas se somam e não devem existir barreiras entre elas, é o que faz uma engrenagem assim girar. Pouco antes de morrer minha avó pediu para o meu avô plantar milho. Foi lá o velhinho (que de repente é mais forte do que eu) e plantou para ela como um presente, plantava as verduras dela e outras especiarias. Já sei, o mundo hoje é diferente, blá blá blá, concordo. Concordo também que ele é muito pior, trocaria a internet, o vídeo cassete e os carros loucos, por uma porção de amor, pelo próximo e por si mesmo. Hoje pensamos que somos felizes em parte pelo “conforto” material, porém, nesse mundinho a beira do abismo, procura-se viva ou morta a compaixão e o bom senso. Procura-se também alguém com a capacidade de abrir seu universo para que seja compartilhado com alguém que se importa, sem que esse seja taxado de nóia, ou seja, um obstáculo. Não imagino meus avós discutindo sobre quem é nóia ou não, ou pedindo mais espaço para “sentir saudades...”. Esse mundo só não existe mais porque nós mesmos não permitimos, nós mesmos somos egoístas, satisfazemos nossas carnes com sentimentos descartáveis, satisfazemos nossos egos inflados com bens materiais e frescuras de todo o tipo, mantemos nosso egoísmo a toda acusando o outro, mentimos muito, dissimulamos, usamos pessoas como objetos, somos usados como objetos, passamos um pano, jogamos um jogo com máscaras e deixamos de lado qualquer sentimento que implique em compartilhar com alguém seu lado bom, como se o lado bom das pessoas fosse uma propriedade particular ao invés de um bem público.
Mais uma pessoa da geração do true love foi embora, logo logo, essas histórias serão apenas ficção, tipo Romeu e Julieta e seremos cada vez mais selvagens emocionais.
Minha nona deixou a Terra, em ensinou mais uma mesmo depois de morta e eu tenho certeza que a partir de hoje mais uma estrela passará a brilhar no céu. Beijos Nona!!!!
:: Alexandre Sigolo 9:46 AM [+] ::
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